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Com 50 anos de carreira, Rogéria fala sobre infância, caso com mulher e prostituição

“Já saí com uma mulher em Genebra, porque o marido dela me pediu e quis me dar um apartamento”, diz Rogéria Simone Marinho / Agência O Globo
RIO - Aos 70 anos, Rogéria é adorada pelas senhoras de Copacabana. Dia desses, recebeu a bênção do padre da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, no Leme, sob o olhar de aprovação de um casal que comemorava seis décadas de união. "Sou o travesti da família brasileira", costuma repetir. Um feito e tanto para quem nunca recorreu à hipocrisia para ser aceita. Aos 12 anos, deixou a unha crescer e bateu perna pelas ruas de Niterói com roupas de mulher. Na década de 1950, foi parar na delegacia do Catete por desfilar de biquíni em frente ao Outeiro da Glória.

— Deve ser um horror ter que viver no armário — diz ela, que completa cinco décadas de carreira em 2014 e vai estrelar o primeiro documentário dirigido por Leandra Leal, “Divinas divas”, com estreia prevista para 2015.

Pouco antes de incorporar o nome artístico, Rogéria maquiou e penteou as maiores divas da extinta TV Rio — de Fernanda Montenegro, passando por Bibi Ferreira e Elis Regina. Com a vedete Carmen Verônica, aprendeu que o chique é ter unha quadrada — lição que segue à risca até hoje. Já conhecida no Brasil, ouviu da atriz Aracy Balabanian: “Querida, saia já daqui. Seu negócio é Europa”. Com vinte e poucos anos, foi de mala e cuia tentar carreira internacional.
— Queria ser Bette Davis, nunca quis ser uma qualquer — diz ela.

Rogéria rodou o mundo. Passou por Angola e Moçambique antes de seguir para Barcelona, onde trabalhou na boate Gambrino's, que ficava na entrada de Las Ramblas. Pressionada a fazer operação de mudança de sexo, tentou a sorte em Paris. Sete meses depois, soltava a voz no cabaré Carrousel. Na capital francesa, ela deixou o cabelo crescer, virou fã dos perfumes da Estée Lauder e tomou hormônio feminino — ela se gaba de nunca ter colocado silicone nos seios. Lá também foi apresentada a Yves Saint-Laurent, no camarim da bailarina Zizi Jeanmaire. Em Teerã, a diva conheceu uma das suas maiores paixões: o caviar.
— Mas o de verdade, o gris bleu (cinza-azulado) — frisa.

De volta ao Brasil, Rogéria não parou. Ganhou o Mambembe de Atriz Revelação em 1979, pela atuação na peça “O desembestado”. Também fez sucesso no cinema e na TV, em novelas como “Tieta” e, recentemente, “Lado a lado”. Seu último filme foi “Copacabana”, dirigido por Carla Camuratti. Longe das câmeras, viveu uma tórrida paixão com o temido policial Mariel Mariscot, acusado de pertencer ao Esquadrão da Morte. Hoje, mora num pequeno apartamento no Leme, que tem as paredes cobertas por fotos de Marilyn Monroe, seu ídolo-mor. Como dona de casa, ela assume ser uma negação: “Nunca arrumo a cama, detesto lavar louça e faço ovo frito no micro-ondas”.

O GLOBO: Quando foi a primeira vez que você saiu na rua vestida de mulher?
Rogéria: Tinha 12 anos e estava na casa de um vizinho, em Niterói. Botei um maiô Catalina preto, uma saia amarela, um chapéu, e fui andando até as barcas. Todo mundo ficou enlouquecido porque sempre tive as pernas grossas. Sou mulherzinha desde pequenininha. Mas nunca ninguém conseguiu me tocar sexualmente.

Enfrentou muitos problemas por causa disso?
Lá em casa, a palavra “viado” nunca foi mencionada em relação a mim. Até porque eu poderia receber uma Bette Davis de frente e sair distribuindo bofetada. Tive a maior mãe do mundo e nunca sofri bullying. Toda vez que aconteceu alguma coisa comigo, foi porque eu quis. Minha mãe foi uma mulher tão maravilhosa que nunca teve vergonha de mim. Ela, que trabalhava no laboratório do Exército, sempre dizia: “Não se importe com o que possam falar, porque você ganhou da mamãe hormônio demais”. Tenho que levantar as mãos pro céu, porque mãe igual à minha está para nascer. E depois tem o seguinte: se ela tivesse vergonha de mim, estaria perdida. Porque eu sempre fui Rogéria.

Acredita em “opção” sexual?
Isso é a maior mentira. Eu nasci gay, não tive desvio de nada. Mas muitos não assumem, daí têm que casar e ter filho. Deve ser um horror ter que viver no armário.

Como foi que surgiu o nome Rogéria?
A (atriz) Zélia Hoffman tinha dado a ideia para eu usar Rogério, porque Astolfo não combinava comigo. Daí criaram uma fantasia de dama da noite para eu concorrer no concurso do baile de carnaval do Teatro República (que funcionou na Avenida Gomes Freire, no Centro). Cheguei com um espartilho preto bordado, com flores pretas, cinta-liga, salto alto e um chapéu com um rabo de galo verde-esmeralda em cima. Empatei em primeiro lugar com a bicha mais rica da festa. Quando disse meu nome, o público começou a gritar: “Rogéria, Rogéria”!

Teve muitos amores?
Acho que só amei de verdade uma vez. Não posso falar o nome, porque hoje ele é casado. Mas foi muito bom conhecer o amor tão jovem. Paixão é uma coisa que te enlouquece, mas na hora de ir pra cama nada acontece. Amor é quando você está tendo um orgasmo sentindo aquela dor no coração, achando que vai morrer, beijando na boca, chorando. Tudo ao mesmo tempo. Mas ele se estrepou porque quis que eu escolhesse entre ele e o showbusiness. Aí eu dei tchau.

Já sentiu atração por mulher?
Jamais tive. Mas já saí com uma mulher em Genebra, porque o marido dela me pediu e quis me dar um apartamento. Ela veio com muita sede ao pote e eu fiquei apavorada. Mas abstraí e foi um divisor de águas. Que bom eu saber que mulher é para ser minha amiga. Adoro enfeitá-las e deixá-las lindas.

Você já fez programa?
Fui para ver como era o negócio, quando estava em Paris. Mas o cara era horroroso e eu não consegui. Daí ele perguntou: “Não vai levantar?”. Respondi: “Para o senhor, não”. Daí, ele me deu um esporro, botou o dinheiro na minha bolsa e foi embora. Não tenho vocação pra fazer amor com quem eu não estou a fim.

Por que saiu do Brasil para tentar carreira no exterior?
Eu queria ser Bette Davis, nunca quis ser uma qualquer. Então, fui enfrentar o mundo com vinte e poucos anos, e fiquei longe por quatro anos e meio. Comecei pela África e depois fui para Portugal e Espanha. Em Barcelona, trabalhei numa boate nas Ramblas, mas fui embora porque queriam que eu cortasse o “babado”. Então segui para Paris, que foi a cereja do bolo. Lá, deixei o cabelo crescer e fui a estrela do (cabaré) Carrousel de Paris. Fiquei amiga da (bailarina) Zizi Jeanmaire e conheci Yves Saint Laurent. Na época, ele namorava um cubano que foi me ver num espetáculo. Também estive em Teerã e trabalhei para Farah Diba, a viúva do Xá Rheza Phalavi. Lá eu conheci o caviar. Mas o caviar de verdade, o gris bleu (cinza-azulado).

Já colocou silicone?
Claro que não! Pode apertar! Só tomei três doses de hormônio em Paris e nunca mais. Não gosto de ter peito grande. Quando eu boto a mão neles e sinto que cresceram, penso: “Xi, engordei”.

Qual é a sua relação com a religião?
Eu sou ecumênica e procuro não me meter na religião dos outros. Mas costumo ir direto a Deus. Se bem que frequento missa às vezes, é um descarrego. Outro dia eu pedi a bênção para um padre e ele deu. Agora, tem quem defenda a cura gay, né? Tenho vontade de rir. Eu sou a prova viva de que homossexualidade não é doença. É o fim da picada.

Você sofreu um acidente de carro em 1981, que desfigurou seu rosto. Como foi para você lidar com as cicatrizes?
Fomos levar uma amiga no Engenho de Dentro e batemos numa bifurcação. Eu estava no banco de carona, sem cinto. Quando me olhei no espelho, pensei: “Minha vida acabou”. Tive que fazer uma plástica e o Pitanguy deu um jeitinho depois. Mas o jeito maior fui eu mesma que dei, com meu coração dizendo “Tira a cicatriz de dentro de você”. Quarenta e cinco dias depois, eu estava em frente a seis câmeras de TV.

Existe diferença entre a Rogéria e o Astolfo?
Não. Sou sempre o Astolfo. Rogéria é apenas uma pessoa que se apresenta. Sempre que estou interpretando, tem o Astolfo atrás segurando a peteca. Não fiquei maluca, não.


Fonte: O GLOBO
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