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Direito das Pessoas Homossexuais, PL 122 e os lideres religiosos homofobicos


PL 122: Um tema nem tão controverso

Certamente lhes será surpreendente ler este tema. Perguntam-me o motivo de promover este assunto e alguns, imbuídos de má vontade digam, talvez, até que isto depõe contra a Igreja. Mas qual é o objetivo que quero alcançar? Muito simples. O tema da sexualidade e em especial o da orientação homossexual, é um tema bíblico, teológico e pastoral. Aquilo que pretendo discutir, não é a sexualidade em si, pois para ela dedico quase nada de meu tempo, mas sim que coloco o tema frente a diferentes escolas de interpretação das Escrituras e de nossa identidade como cristãos e cristãs. Esse debate não é secundário, mas importante e necessário em nossa vida como Igreja e fundametal para como testemunhamos a fé em Jesus Cristo. Este debate é aquele pelo qual nossa identidade de cristãos e cristãs se mantém ou cai.
Para sermos salvos temos que ter fé em Deus e amor no coração e não ter essa ou aquela orientação sexual. A fé e o amor nos libertam de toda servidão de uma serie de tiranias, entre elas, a lei. Este eixo central de nossa hermenêutica bíblica: fé e amor - não é negociável e nos liberta de toda tentação moralizante que tendemos a colocar na obra de Jesus de Nazaré a quem confessamos como o Cristo do Deus do Reino.
A reação de lideres cristãos ao PL 122 que pretende punir o crime de homofobia, é sumamente clara e um exemplo deste debate. Seus sermões, seus abaixo assinados, suas pressões no Congresso, suas chantagens e suas mentiras, nos revelam sua forma de fazer hermenêutica bíblica e confessional e a medida de seu compromisso com a causa do Reino de paz e de justiça, pretendido e anunciado por Jesus Cristo.
Em primeiro lugar todo debate sobre sexualidade, orientação sexual e matrimonio é um debate colocado no Reino Secular e não no Reino de Deus. A diferença destas duas áreas da soberania de Deus é essencial que a mantenhamos. No Reino Secular empregamos como ferramenta de análise a razão, enquanto que no Reino de Deus utilizamos a Revelação. Portanto nossas interferências como lideres religiosos no Reino Secular afetam o espaço de serviço e promoção de diretos de nosso próximo, seja ele crente ou não, e um dia teremos de prestar contas delas ao Senhor da Vida. Nesse espaço temos que conseguir que todos os seres humanos, bons ou maus, sejam considerados espaços sagrados e pessoas que têm igualdade de diretos.
Temos que recordar junto aos religiosos homofobicos que a Palavra de Deus não é um livro, mas sim uma Pessoa: Jesus Cristo que nos revela o amor de Deus. Temos que recordar o Credo que confessamos: Qui propter nos hómines et propter nostram salútem Descéndit de cælis. Et incarnátus est de Spíritu Sancto Ex María Vírgine, et homo factus est.
Esta é nossa cristologia. Não há mérito, condições e orientação sexual que nos impeça de nos aproximar-nos desta obra libertadora de todas as tiranias, de todos os estigmas, de todas as exclusões e de todas as discriminações que são fonte de morte e injustiça que é Evangelho de Jesus Cristo. Jesus Cristo não é Moisés e não devemos confundir a Lei com o Evangelho. A Igreja deve anunciar sempre e em toda circunstancia a graça surpreendente e escandalosa de Deus. Essa é nossa tarefa, vocação, missão e visão.
A Bíblia tem diversidade de livros de distinta qualidade e muitos de seus relatos são historias realmente pouca santas. A santidade da Palavra de Deus, que sempre é o Cristo de Deus, não se confunde com a santidade de um livro com diversas qualidades de livros, tanto entre eles como dentro deles. Nem todos os textos da Biblia têm a mesma santidade e nem tudo revela na plenitude o Evangelho, as boas novas da iniciativa de Deus de reconciliar e reconciliar-se com a criação. Quando falamos de sexualidade e casamento, estamos falando de acordos sociais que tentam proteger direitos, alguns deles muito duvidosos. O conceito, as formas e os ritos do matrimonio são uma construção cultural e religiosa. As Escrituras são um testemunho das diversas formas em que se interpretou dentro das Escrituras mesmas este conceito e a historia da liturgia e da teologia do matrimonio na comunidade cristã mostram essa constante construção e diversidade de pontos de vista sobre este tema realmente social. Quando falamos em sexualidade, homossexualidade, homofobia, casamento não estamos discutindo sobre as Escrituras, mas sim sobre acordos e leis humanas, sobre ritos humanos que não necessitamos celebrar em uniformidade. Diferente é quando falamos em amor, porque o amor procede de Deus e conhece a Deus, pois Deus é amor (cf. 1Jo 4,7-8).
Ataques aos direitos sociais das pessoas homossexuais nos desafiam a pensar novamente sobre como vivemos o compromisso que nossa fé impõe a nossa fidelidade ao Evangelho. O exercício da sexualidade não é central para nossa salvação, mas sim a fé e o amor. Ou alguém pensa que se salvará pelo exercício dessa ou daquela sexualidade? Condição sexual não é condição para crer e amar. Aceitamos realmente que só Cristo salva e evitamos qualquer outro caminho tentador pelo qual queiramos chegar a santidade e a libertação de todas as tiranias? Aceitamos só a Escritura para evitar que alguma cerimônia humana ou uma tradição cultural se infiltre em nosso conceito de inclusividade? Continuamos crendo que só a graça para que nenhum ato, obra, mérito, condição humana se infiltra em nosso conceito de discipulado e ainda sustentamos que a fé e o amor são as condições da salvação para que nunca voltemos a cair no sistema que busca a salvação através do cumprimento da Lei? Se sim, entao porque tanta preocupaçao com a preferencia sexual das pessoas.
Alguns lideres religiosos podem, com todo direito, dizer não às conquistas das pessoas homossexuais e podem tentar justificar isso com sua fraca teologia, mas é realmente uma heresia pretender impor esse não à totalidade da Igreja de Cristo. Os que consideram os atos homossexuais um pecado, mesmo os exercidos com amor e respeito e relacionamentos estáveis, têm que explicar-me como e com que hermenêutica lêem as Escrituras.
Oro e trabalho para que o Espírito que não se confunde com a Letra nos ajude a realizar um discernimento de nossa forma de ser cristãos e cristãs que queremos ser obedientes à tarefa de anunciar bênção e não condenação e preconceito. Também trabalho e oro para pedir a graça de Deus que abunde de forma que recupere na Igreja de Cristo seu lugar central do qual nunca teveriamos te-la tirado. Só o Espírito que nos ajuda a não confundir a letra com a Palavra e a Graça radicalmente inclusiva de Deus nos pode ajudar a resolver estes temas.

Deus os abençoe com paz e alegria.

Por Padre Gelson Piber
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