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Viado virou vírgula!


Por: Léo Rossetti
Publicado originalmente no blog Sai na Urina

Na última quinta-feira eu estava caminhando perto de casa, rumo ao trabalho. Perto de onde moro, costumam os rapazes jogar partidas de futebol nos campos improvisados que são as ruas caxienses. Neste dia eu precisei atravessar um desses campos e me chamou a atenção quando um dos guris exclamou: "Para a bola, viado! O moço tá passando". Que 'viado' fosse troféu usado nas partidas de futebol para se xingar o juiz, o zagueiro ou o goleiro, não é novidade. Mas esse novo 'viado' soou diferente. Ou, antes, se 'viado' viesse depois de 'moço', estaria no plano da lógica entender que a bola da vez seria o maldito do pedestre que atravessou a partida, seja porque eles querem xingar a esmo o chato que atrapalhou a pelada, seja porque eles de fato acreditam que o filho da puta que adentrou o jogo de futebol é, de fato, 'viado'; neste caso: eu.

Mas os rapazes utilizaram 'viado' como quem diz, 'parceiro', 'companheiro', 'rapaz'. Dizer 'Para a bola, viado!', naquele contexto, era o mesmo que: 'Para a bola, rapaz!', 'Para a bola, parceiro' ou uma série de desígnios que poderíamos ainda, se quiséssemos, enumerar: 'sangue', 'fera', 'brother' etc.

Isso é bastante significante se considerarmos a história da homofobia no nosso país. Trata-se de uma mudança de paradigma e uma evolução da semântica do termo 'viado'. Parece que o tempo se encarregou de transformar o que era negativo em positivo. O tom pejorativo, de segunda classe, de subcategoria, de gente inferior, foi ressignificado nas partidas de pelada no alvorecer do século XXI, nas ruas de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, região relativamente pobre do Brasil. E não me consta que algum daqueles moleques que se divertiam fosse homossexual, ou aparentasse sê-lo (também como haveria de me constar? Acaso a aparência ou a atividade esportiva de uma pessoa pode designar a sua orientação sexual?).

O fato é que hoje em dia 'viado' virou vírgula na boca dos heterossexuais. Amigos, colegas de bar, parceiros de chopp e de peladas, todos não poupam esforços ao se referirem uns aos outros como 'viado', atribuindo um sentido positivo à palavra. A tempo, saliento que, quando digo sentido 'positivo' não estou querendo dizer que ser homossexual é per se algo negativo mas, antes, que a intenção do comunicante ao proferir o termo não é jocosa, de escárnio ou de humilhação. Não é, portanto, negativa. E hoje esse sentido positivo de 'viado' merece ser levado em conta. Não, não estou me enganando quanto à atribuição de negatividade à palavra nos dias de hoje. Sei que ainda assistimos, em contextos variados, garotos sendo chamados de 'viado', sem que haja intenção de elogiar ou estabelecer relação de parceria: a ideia é ferir, mesmo. A escola, a igreja e a família ainda tem o estigma do animal chifrudo e saltitante, aquele bichinho que virou sinônimo de ser inferior.

Por outro lado, se hoje se vê e ouve 'viado' por todos os lados, positivamente, o mesmo não se pode dizer da palavra 'bicha', por exemplo. À exceção das relações que se estabelecem entre a população LGBT ou entre esta e uma raríssima casta de heterossexuais não-homofóbicos, a palavra 'bicha' ainda não alcançou, em nenhum tipo de relação informal, a merecida ressignificação. Se existe uma explicação para o tal feito? Logicamente há. Se porventura você não percebeu, o 'viado' é masculino; a 'bicha' é feminina. A questão de gênero perpassa os debates em torno da diversidade sexual. Não é mero acaso. Está para nascer o dia em que o feminino seja usado pelos heterossexuais em partida de futebol como elogio, como sinônimo de amizade, de coleguismo.

Fenômeno semelhante se observa ao se xingar um indivíduo quando a ira acomete aquele que profere o xingamento, inclusive, quando o alvo do xingamento é um juiz de futebol e o ofensor é um torcedor. Não são poucas as vezes em que já ouvi em jogos, torneios, copas do mundo, amigos irados xingando o árbitro de 'filha da puta'. Observem: 'filha', no feminino. Podem alguns gramáticos explicarem o fenômeno como simples erro de concordância nominal; ou linguistas dizerem que é mais fácil 'filha' concordar com 'puta', do que 'filho', no masculino. Eu, porém, que não sou nem gramático nem linguista, procuro pautar minha explicação na minha área de formação, que é a História. E ela me mostra, através das experiências ocorridas no passado, que o presente é resultado desse pretérito preconceituoso que construímos, que a homofobia tem raízes na formação desta sociedade patriarcal, que o sexismo vem sendo construído através dos paradigmas da heteronormatividade e do machismo, e que muitas barreiras foram colocadas abaixo justamente porque a 'sociedade do presente' questionou as bases da 'sociedade do passado'.

E é com esperança na História que espero, um dia, passar no meio de uma partida de futebol e ser chamado de 'bicha', sem que haja nesta palavra o sentido negativo e humilhador que possui hoje, um sentido perverso e homofóbico, um título vexatório imputado forçosamente a muitos LGBTs (e também a não-LGBTs), título este ostentado nas marcas roxas dos olhos constrangidos de muitos homossexuais, privados publicamente do direito de ser quem verdadeiramente são.
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