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Lea T: "Serei uma exceção"


Bonita, bem educada, modelo. E se tornou o novo rosto da campanha da Givenchy. Mas em seu passaporte está escrito “Leandro Cerezo”. Conheça a história de um rapaz que sempre se sentiu feminino e não vê a hora de experimentar a felicidade com a mudança completa de sexo

Por Paola Jacobbi da Vanity Fair Itália


Lea não sabe dizer quantas vezes se viraram para ela, na rua, e gritaram, em voz alta: “Gente, é um travesti!!!”, com todos os pontos de exclamação e com o ar de nojo de quem viu uma barata gigante. No aeroporto, quando policiais que verificam os passaportes veem que no registro daquele mulherão há um nome masculino — Leandro —, eles riem e se acham no direito de chamar os outros para tentar passar uma cantada no “fenômeno” — e, em alguns casos, é como ela se sente. Lea disse que sempre foi assim, mas que depois do caso Marrazzo ficou ainda pior. Trata-se do vídeo com Piero Marrazzo, governador da região italiana do Lácio, gravado em atitudes carinhosas com transexuais. As imagens ficaram conhecidas e ele se demitiu do cargo em 2009.

Para a sociedade, portanto, transexual é sinônimo de prostituição, de quartos miseráveis, de underground. Mas nem sempre é assim. Prova disso é a própria Lea. Aos 28 anos, é culta, fala várias línguas e tem uma elegância invejável (tem 1,80 m e pesa 48 kg), com as mãos finíssimas, pulsos delicados, a pele e os olhos que não precisam de truques. Sempre teve educação privilegiada [é filha do ex-jogador Toninho Cerezo com a primeira mulher dele, Rosa Helena Medeiros].


Ousada Lea na campanha da Givenchy
Lea é estilista e modelo. Cresceu na Itália por conta do trabalho do pai. Foi escolhida por Riccardo Tisci, diretor de criação da Givenchy, para posar na campanha outono-inverno 2010/2011. Foi ele quem a descobriu, há alguns anos, e por isso passaram a chamá-la de Lea T. No Brasil, começa a fazer alguns trabalhos e está sendo rondada para desfilar na São Paulo Fashion Week. Inquieta, submete-se a terapias farmacológica e psicológica como parte da preparação à cirurgia que vai mudar seu sexo. Aqui ela conta como se sente em relação a isso e quais rumos espera tomar em sua vida.

Marie Claire Onde Leandro nasceu?
Lea T Nasci em Belo Horizonte, Brasil, há 28 anos.

MC Você fala várias línguas, inclusive tem fluência no italiano. Foi para a Itália quando era menina?
LT Sim, eu tinha 1 ano. Mas era um menino. [risos]

MC Certo... É difícil lembrar disso, olhando para você. E onde cresceu?
LT Fiz os estudos em Gênova e depois o liceu artístico em Florença. Só durante alguns anos. Depois fui viajar: Ibiza, Tóquio, Nova York. Trabalhava um pouco como modelo. Era bonito, com uma grande cabeleira afro, no estilo Michael Jackson no tempo do Jackson Five. Não que eu fizesse grande sucesso como modelo. Ao contrário, geralmente, quando entrava para o casting masculino, sempre vinha alguém me dizer: “As garotas devem ir para o outro quarto”. Eu ficava vermelha, ou melhor, vermelho de vergonha. Durante algum tempo ainda pensei que estudaria veterinária: curar os animais era meu sonho de infância. Um dia, em Milão, uma amiga maquiadora me mostrou os vestidos desenhados por um rapaz que havia saído da St. Martin’s School, a famosa escola de moda de Londres. Era Riccardo Tisci. Conhecemo-nos e comecei a trabalhar para ele, fazendo fitting (provas de roupa no showroom) e me apaixonei pela moda. Também trabalhei com a estilista americana Patti Wilson. E depois Riccardo me convidou para posar para a campanha.

MC O que você deseja para o futuro?
LT Quero trabalhar, tornar-me economicamente independente. E finalmente fazer a operação.

“A família torcia para eu ser gay, seria mais fácil”

MC Vamos voltar um pouco atrás. Quando você compreendeu que Leandro não podia continuar vivendo “como homem”?
LT Logo. Eu cresci em um ambiente muito feminino. Meu pai estava sempre longe: eu vivia em osmose com minha mãe, minhas irmã. Também avó e tia. Nunca tive um ideal masculino com o qual me identificar. Quando papai vinha para casa e me observava, dizia ver em mim alguma coisa que não estava certa. Com os anos, todos começaram a rezar para que eu fosse gay. Teria sido mais fácil, o menor dos males. Principalmente para uma família tão religiosa, habituada às regras da vida rígida do mundo colonial.

MC E você, como se sentia?
LT Eu me sentia dividida. Minha primeira paixão foi por uma menina. Depois por um rapaz, que me correspondia. Mas não posso dizer que tivesse uma sexualidade definida, uma direção exata do desejo. Quando descobri o trans, me aproximei com curiosidade, mas depois recuei e dizia a mim mesma: “Eu não sou assim”.

MC Como?
LT Uma pessoa que sempre se sentiu feminina. Culturalmente, esteticamente, o meu mundo de referência é o das mulheres. Mas nem por isso jamais perdi a cabeça por um homem.

“A escolha é entre ser infeliz para sempre ou tentar ser feliz”

MC A operação vai mudar tudo?
LT Já ouvi mil vezes trans dizerem: “Com a operação finalmente me tornarei mulher”. Eu não penso assim, sou realista. Sei que terei uma vagina reconstruída, que não é uma verdadeira vagina, sei que provavelmente não viverei a experiência do prazer feminino, sei que nos documentos serei uma mulher e isso facilitará a minha vida, ou pelo menos assim espero. A escolha é entre ser infeliz para sempre ou tentar ser feliz.

MC Discutiu isso com seus pais?
LT Quando comecei a terapia hormonal que antecede a operação, falei com minha mãe, que, por sua vez, falou com meu pai. Com ele nunca troquei uma palavra diretamente. São separados, ele tem outra companheira, que eu não conheço. Falamo-nos de vez em quando por telefone e nos vemos uma vez por ano. “Como vai, tudo bem?” e termina aí.

MC Quais são os efeitos dessas terapias hormonais?
LT São de enlouquecer! O corpo muda: os pelos desaparecem, os seios começam a crescer, aparecem as curvas. Mas os efeitos sobre o humor são terríveis. É como ser uma mulher em TPM permanente. Pelo menos para mim é assim. Cada corpo e cada história são diferentes. Eu tenho sorte. Mesmo quando era rapaz não tinha muita barba.

MC Era um rapaz bonito?
LT Sim. Sempre olho para minha foto de homem, no passaporte. Eu era um amor.

MC Hoje tem um companheiro?
LT Sim, tenho alguém. Uma pessoa a quem eu quero bem. Mas não é uma verdadeira relação. Este é um momento muito delicado da minha vida. Não posso me permitir o luxo de me apaixonar.

MC Depois da operação, talvez.
LT Não acredito em casal. O modelo do casamento dos meus pais não foi dos mais felizes. Não sonho com o casamento ou com adotar um filho, como fazem algumas trans operadas. Além disso, enquanto as trans dizem que são atraídas pelos homens, não é assim automático. Nós recusamos a ideia de ser homens, é um conflito constante.

MC Uma ideia de sexualidade não muito feliz.
LT Sim. A minha vida sexual foi boa em alguns momentos, mas nunca foi completa, sempre me senti um pouco envergonhada.

MC Sente-se sozinha?
LT Trans crescem na solidão. Com a operação nascemos uma segunda vez, mas ainda sozinhas. E morreremos sós. É o preço que se paga.

MC Mas existem trans que se casam.
LT Eu as conheço. Vivem na hipocrisia, uma variante da solidão: estão há dez anos com um homem e nunca lhe disseram quem eram antes da operação. Eu nunca poderia mentir. Se não há respeito, não há amor.

MC É possível para uma trans ter um trabalho que não seja...
LT De prostituta? Muito difícil, do jeito que vão as coisas. Como você deve saber, há um importante diretor de uma grande empresa de cosméticos internacional que é trans. Mas é uma exceção. Eu tento ser uma dessas exceções, porque posso me permitir isso. Minha família sempre me ajudou, mas eu gostaria de me manter sozinha. Mas é difícil. Quando comecei a fazer o tratamento, andava pela rua cheia de hormônios no corpo, deprimida, com as pessoas que riam nas minhas costas. Não conseguia nem entrar em uma loja e pedir um emprego de balconista. A maior parte das trans é prostituta porque não tem outra escolha. Muitas são tão desesperadas que se tornam trans porque sabem que assim ganharão mais. Devastam seu corpo e sua identidade por fome, vítimas da miséria e do preconceito.

MC Há três meses eu entrevistei Holly Woodlawn, uma famosa transexual que trabalhou com Andy Warhol. Ela nunca se operou porque, como me disse, “não é uma planta: se o cortar, não volta a crescer”.
LT Que engraçada! Essa eu vou passar adiante! Mas não adianta. Eu já decidi. Vou me operar.

MC Realmente não teme a irreversibilidade dessa decisão?
LT Não. Eu sempre detestei aquela coisa. Quando estou nua, no espelho, coloco uma mão na frente para não ver — é muito feio.

Riccardo ainda a chama de Leandro, ou melhor, Leo, com “o”. É difícil se acostumar. Mas essa última vogal é irrelevante na sua amizade, que nasceu quando Riccardo Tisci ainda não era aquele “Tisci”, admiradíssimo diretor de criação da Maison Givenchy. Tornaram-se amigos. “Lea tem estilo, sabe desenhar, tem um ótimo olho para a arte e instinto para a música”, diz Tisci. Ele explica assim sua decisão de colocar cinco homens (quatro e meio, visto que um é Lea) na nova campanha de moda feminina: “Sempre fui fascinado pelo andrógino, na arte e na cultura pop. Gostava muito de Renato Zero e de David Bowie. Na alta-costura, tenho muitas clientes trans. Era fatal que mais cedo ou mais tarde aparecesse uma em uma campanha minha. Não uma qualquer, mas Lea, pessoa de elegância inata, que parece saída dos anos 30, uma deusa da feminilidade”. No mundo da moda é fácil fazer campanhas transgressoras... “Nem tanto: a moda também é um negócio”, responde Tisci.

“Disseram que sou corajoso. Espero que a mensagem chegue claramente em apoio à comunidade trans, mas sobretudo espero que Lea encontre a felicidade e o sucesso que merece.”

Fonte: Marie Claire
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